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Blumenau é a Capital Brasileira da Cerveja. Mas de qual cerveja?

A licitação para a operação do novo Setor 5 da Oktoberfest Blumenau abriu uma discussão que vai além de uma marca de cerveja. A Associação Blumenau Capital Brasileira da Cerveja questiona critérios do processo e as condições oferecidas ao novo espaço, enquanto a organização da festa defende que o modelo é diferente e afirma que a produção do chope terá de acontecer em Blumenau.

Blumenau é a Capital Brasileira da Cerveja. Mas de qual cerveja?
Foto: Divulgação

Uma licitação colocou a identidade cervejeira de Blumenau em debate

Blumenau construiu ao longo de décadas uma relação tão forte com a cultura cervejeira que recebeu oficialmente o título de Capital Brasileira da Cerveja. Mas uma discussão envolvendo a Oktoberfest 2026 colocou uma pergunta desconfortável no centro dessa identidade: quanto espaço os produtores locais realmente ocupam dentro da principal vitrine cervejeira da cidade?

A polêmica começou após a divulgação do resultado do processo para exploração comercial do restaurante do novo espaço da Oktoberfest, tratado como Setor 5. A Associação Blumenau Capital Brasileira da Cerveja (ABCBC) publicou uma manifestação questionando critérios estabelecidos no processo e seus possíveis impactos sobre as cervejarias instaladas no município.

O processo foi homologado em 18 de junho de 2026 pela Blumenau Eventos. A empresa vencedora foi a HB Cervejaria e Choperia Ltda., com valor de R$ 40,1 mil por edição, para atuação nas Oktoberfests de 2026 e 2027.

O ponto central da discussão, porém, não está simplesmente em quem venceu. Está nas regras utilizadas para definir quem poderia competir.

O critério ligado à Oktoberfest de Munique

Segundo a manifestação da ABCBC, uma das diretrizes técnicas estabelecidas determinava que o chope comercializado no espaço deveria pertencer a uma marca com participação oficial em uma tenda da Oktoberfest de Munique.

Ao mesmo tempo, o produto deveria ser fabricado em uma unidade localizada no município de Blumenau e dentro de uma faixa específica de capacidade produtiva.

Entre as condições apontadas estavam:

  • participação oficial da marca em tenda da Oktoberfest de Munique;
  • produção exclusivamente em unidade fabril localizada em Blumenau;
  • capacidade produtiva superior a 25 mil litros mensais;
  • capacidade inferior a 416.666,66 litros de chope ou cerveja por mês.

Para a associação, a combinação dessas exigências acabou limitando a possibilidade de participação de produtores locais que já fazem parte da cadeia cervejeira da cidade.

A entidade também afirmou que as cervejarias locais teriam sido surpreendidas pelo resultado e que não tiveram conhecimento prévio da realização do processo.

Associação questiona diferença nas condições financeiras

Outro ponto levantado pela ABCBC envolve o modelo financeiro adotado para o novo espaço.

Segundo os números apresentados pela própria associação, cervejarias artesanais que operam pontos nos Setores 1 e 2 da Oktoberfest desembolsam, em média, cerca de R$ 188 mil por ponto comercial, além do pagamento de 15% sobre o faturamento.

No caso do novo espaço, a contratação da HB Cervejaria e Choperia foi homologada em R$ 40,1 mil por edição, com percentual de 12% sobre as vendas de bebidas, conforme divulgado na discussão pública sobre o processo.

Para a entidade, essa diferença levanta uma questão sobre a igualdade das condições oferecidas aos diferentes participantes da Oktoberfest.

Mas é justamente nesse ponto que a organização da festa apresenta uma interpretação diferente.

Oktoberfest diz que comparação entre os espaços não é adequada

Em resposta às críticas, a organização da Oktoberfest Blumenau afirmou que o processo foi realizado em conformidade com a legislação e com critérios públicos e transparentes.

Segundo a organização, não é adequada uma comparação direta entre o Setor 5 e os pontos tradicionais ocupados pelas cervejarias artesanais, porque os modelos de operação são diferentes.

O novo espaço foi concebido como uma experiência inspirada nos restaurantes tradicionais da Oktoberfest de Munique. A proposta prevê elementos como:

  • atendimento diretamente nas mesas;
  • utilização de canecos de vidro;
  • pratos de porcelana;
  • estrutura gastronômica completa;
  • responsabilidades operacionais maiores para quem explorar o local.

A organização afirma ainda que o modelo utilizado como referência para estabelecer os valores foi o restaurante do Ginásio Galegão, e não os pontos convencionais das cervejarias artesanais.

Segundo a Oktoberfest, o valor mínimo estabelecido para o novo setor seria aproximadamente o dobro do praticado no Galegão, enquanto a comissão sobre faturamento permaneceria em patamares semelhantes.

O chope terá que ser produzido em Blumenau

Há outro elemento importante no debate.

Apesar da relação da marca vencedora com a tradicional Hofbräuhaus, de Munique, o contrato estabelece que o chope comercializado no novo espaço deverá ser produzido exclusivamente em Blumenau.

A chegada da Hofbräuhaus à cidade já vinha sendo tratada pela Prefeitura como um novo ativo turístico. Em outubro de 2025, uma empresa representante da marca venceu também o processo de concessão do Biergarten, no Centro Histórico, com proposta de implantação de uma unidade ligada à tradicional cervejaria alemã.

A administração municipal apresentou a chegada da marca como oportunidade para ampliar o potencial turístico e fortalecer a conexão de Blumenau com a cultura cervejeira alemã.

A ABCBC afirma que não se posiciona contra a empresa vencedora nem contra os investimentos realizados na cidade. O questionamento está direcionado aos critérios adotados e ao tratamento oferecido aos diferentes participantes da cadeia cervejeira.

Associação também levanta dúvidas sobre a estrutura de produção

A ABCBC ainda questionou a situação da unidade fabril que deverá produzir a cerveja comercializada no espaço.

Segundo a associação, a estrutura estaria em fase de implantação no momento da manifestação, o que levantou dúvidas sobre os prazos para início da produção e obtenção das autorizações necessárias para a atividade.

A entidade cita, especialmente, os registros e autorizações exigidos pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).

O argumento apresentado é que outras cervejarias que se instalaram no município tiveram de cumprir prazos documentais e regulatórios sob risco de penalidades ou desclassificação.

Nesse ponto, entretanto, é importante fazer uma distinção: a associação levantou o questionamento, mas isso não significa que exista irregularidade comprovada na operação da empresa vencedora.

Quem construiu a Capital Brasileira da Cerveja?

Por trás dos números e das cláusulas do processo existe uma discussão maior.

As cervejarias locais fazem parte da construção da própria imagem turística que Blumenau comercializa hoje.

Produção artesanal, festivais, concursos, inovação, gastronomia e turismo cervejeiro ajudaram a transformar a cidade em uma referência nacional do setor.

Em março de 2026, por exemplo, o Festival Brasileiro da Cerveja reuniu mais de 21 mil pessoas em Blumenau, com 27 cervejarias e mais de 200 rótulos disponíveis durante o evento.

É justamente essa relação entre cidade, produto e identidade que sustenta parte da crítica apresentada pela associação.

A entidade argumenta que os grandes eventos municipais também podem funcionar como instrumentos de desenvolvimento econômico, estimulando empregos, investimentos, arrecadação e fortalecimento das empresas que operam na própria cidade.

E Munique? A referência usada no edital também valoriza o produto local

A discussão ganha uma camada interessante justamente porque o modelo de Munique aparece como referência para o novo espaço.

A ABCBC argumenta que a Oktoberfest alemã historicamente mantém uma forte ligação com cervejarias da própria cidade e utiliza essa característica como parte da identidade do evento.

Na visão da associação, Blumenau poderia seguir lógica semelhante, utilizando a força da Oktoberfest para fortalecer ainda mais o ecossistema cervejeiro que ajudou a construir a reputação do município.

"A discussão vai além da escolha de uma empresa específica. Trata-se de refletir sobre qual modelo de desenvolvimento econômico Blumenau deseja para seus principais eventos e sobre como utilizar a força da Oktoberfest para gerar mais empregos, renda, investimentos e arrecadação dentro do próprio município."

A organização da Oktoberfest, por outro lado, afirma que o novo espaço não substituirá as cervejarias locais já presentes na festa e será uma experiência complementar dentro do evento.

A pergunta não é apenas qual cerveja estará no copo

Esse talvez seja o ponto mais interessante de toda a controvérsia.

A discussão não precisa ser reduzida a uma disputa entre uma cervejaria alemã e produtores de Blumenau.

Existe uma questão mais ampla sobre como uma cidade transforma sua identidade em desenvolvimento econômico.

Blumenau usa sua relação com a cerveja como ativo turístico, econômico e cultural. A marca "Capital Brasileira da Cerveja" ajuda a vender a cidade, movimentar eventos e atrair visitantes.

Por isso, quando os próprios produtores locais questionam as condições para participar da maior vitrine da cidade, a discussão merece atenção.

Ao mesmo tempo, trazer uma marca histórica de Munique, criar uma nova experiência gastronômica e ampliar a conexão internacional da Oktoberfest também pode fortalecer o turismo local.

As duas coisas não são necessariamente incompatíveis.

A questão central passa a ser outra: como ampliar a Oktoberfest, atrair investimentos e internacionalizar o evento sem enfraquecer quem ajudou Blumenau a conquistar a reputação que hoje torna esses investimentos possíveis?

É nesse ponto que a provocação deixa de ser apenas uma frase de efeito.

Blumenau é a Capital Brasileira da Cerveja. Mas de qual cerveja?

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