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Gostei da nova marca de Blumenau. Mas talvez ela precise explicar demais para ser entendida

Gostei da nova marca de Blumenau. Mas talvez ela precise explicar demais para ser entendida
Foto: Divulgação

Resumo: A nova identidade visual de Blumenau é moderna, ousada e tecnicamente bem construída. Eu gostei da proposta, mas fiquei com uma dúvida: será que, na tentativa de representar a Blumenau do futuro, a marca não se afastou um pouco demais da cidade que as pessoas reconhecem hoje?

PONTO DE VISTA é a coluna de opinião de Anderson Cardoso, fundador e editor-chefe do Blumenau Hub. Os textos apresentam análises, interpretações e posicionamentos pessoais sobre Blumenau, negócios, cultura e comportamento.

Antes de qualquer crítica: eu gostei

Vou começar pela parte que costuma desaparecer quando uma opinião encontra as redes sociais: eu gostei da nova identidade visual de Blumenau.

Gostei da ousadia, da tipografia, das cores e, principalmente, da decisão de não entregar apenas mais uma releitura previsível da cidade. Seria muito fácil desenhar uma casinha enxaimel, acrescentar algumas flores, escolher uma tipografia germânica, espalhar verde e vermelho pela apresentação e declarar o trabalho concluído.

Teríamos uma marca imediatamente reconhecível.

E provavelmente esquecível.

A nova identidade escolheu um caminho mais difícil. Em vez de reproduzir literalmente os símbolos mais conhecidos de Blumenau, tentou interpretar a personalidade da cidade. O projeto parte do conceito “Cultura do Fazer” e procura representar uma Blumenau construída pelo trabalho, pelo cuidado, pela capacidade de transformação e pelo orgulho de fazer bem-feito.

A criação foi desenvolvida pela Seven Comunicação, com pesquisa conduzida pelo Projeto Focus, da Furb. Segundo as informações divulgadas, mais de 1,6 mil blumenauenses participaram do processo, que também contou com grupos focais e representantes de diferentes setores.

Portanto, não estamos diante de um desenho criado em uma tarde após alguém pesquisar “símbolos de Blumenau” no Google. Existe conceito, pesquisa, método e intenção.

Isso precisa ser reconhecido.

A marca conseguiu escapar do óbvio

Talvez o maior mérito do projeto seja justamente não reduzir Blumenau à Oktoberfest.

Durante muito tempo, a cidade construiu sua imagem externa apoiada em elementos legítimos, mas repetidos quase até a exaustão: arquitetura enxaimel, chope, trajes típicos, gastronomia germânica e referências à colonização.

Esses elementos fazem parte da nossa história e não precisam ser apagados. No entanto, Blumenau não pode continuar se apresentando como se estivesse permanentemente decorada para outubro.

A cidade também é tecnologia, indústria, moda, inovação, serviços, universidades, criatividade, empreendedorismo e uma enorme quantidade de gente que chegou depois e escolheu construir a própria vida aqui.

Nesse sentido, a nova identidade acerta ao tentar representar uma cidade mais ampla. Ela não abandona o passado, mas recusa a obrigação de viver visualmente presa a ele.

Isso é corajoso.

Também é necessário.

A tipografia exclusiva possui formas fortes, cortes geométricos e uma construção contemporânea. As cores ampliam o repertório visual da cidade e buscam representar suas diferentes estações, paisagens e movimentos. O sistema possui flexibilidade para funcionar em materiais institucionais, produtos, eventos, ambientes digitais e aplicações da comunidade.

Há pensamento de marca, não apenas um logotipo.

Mas talvez ela tenha ficado jovem demais

Minha principal dúvida está exatamente no lugar em que reside uma de suas maiores qualidades: a modernidade.

A nova identidade parece jovem, digital, dinâmica e preparada para circular em redes sociais, camisetas, adesivos, produtos e eventos. Ela conversa com a Blumenau que deseja se atualizar e disputar atenção no presente.

Entretanto, em alguns momentos, tenho a sensação de que a marca representa melhor a cidade que Blumenau quer se tornar do que aquela que grande parte da população reconhece hoje.

Isso não significa que toda identidade municipal precise parecer antiga para respeitar a história. Muito pelo contrário. Tradição não pode ser usada como desculpa para produzir comunicação visual com aparência de museu.

Mas Blumenau possui 176 anos, uma memória coletiva muito forte e uma relação profunda com seus símbolos. Quando uma nova marca escolhe uma linguagem extremamente contemporânea, existe o risco de criar uma ruptura maior do que a necessária.

A pergunta não é se a identidade ficou bonita. Para mim, ficou.

A pergunta é se um morador que não acompanhou a apresentação consegue olhar para ela e sentir Blumenau antes que alguém explique onde Blumenau está escondida.

E essa resposta ainda não me parece tão evidente.

Quando tudo precisa ser explicado

Os cortes das letras fazem referência ao enxaimel. As hastes mais fortes representam trabalho e construção. A composição tipográfica forma uma espécie de skyline. Há elementos associados à arquitetura histórica, ao crescimento urbano, à natureza e ao brasão do município.

Depois que tudo isso é explicado, o projeto se torna muito mais interessante.

O problema é justamente este: alguns dos elementos mais importantes só aparecem depois da explicação.

Sem a apresentação conceitual, muitas pessoas provavelmente enxergarão apenas uma tipografia moderna, recortada e colorida. Bonita, certamente. Mas não necessariamente ligada a Blumenau.

Existe uma diferença entre uma marca possuir camadas de significado e depender de uma aula para fazer sentido.

Toda boa identidade visual pode guardar descobertas. Aliás, é ótimo quando um símbolo revela detalhes que não percebemos no primeiro olhar. Isso aumenta sua riqueza e convida o público a observá-lo novamente.

Mas o significado principal precisa chegar antes do manual.

Uma marca de cidade não é feita apenas para designers, publicitários ou pessoas acostumadas a interpretar sistemas visuais. Ela precisa dialogar com o empresário, com o estudante, com a costureira, com o trabalhador da indústria, com quem nasceu aqui, com quem chegou ontem e com quem nunca abrirá o PDF explicando o projeto.

Se o enxaimel só aparece quando alguém aponta, o skyline depende de uma ilustração comparativa e o vínculo com a imprensa centenária exige uma legenda, talvez o conceito esteja sofisticado demais para a percepção espontânea.

Ou talvez nós ainda não tenhamos dado tempo para ele amadurecer.

Uma marca não precisa contar tudo imediatamente

Também seria injusto exigir que um único logotipo explicasse 176 anos de história em três segundos.

Marcas não nascem carregadas de significado. Elas acumulam significado com o uso.

Hoje reconhecemos símbolos de empresas, cidades e países porque fomos expostos a eles repetidamente. Vivemos experiências, ouvimos histórias e construímos associações. O desenho abre a porta, mas é a convivência que transforma uma identidade em patrimônio afetivo.

A nova marca de Blumenau poderá se tornar mais reconhecível conforme aparecer nas ruas, nos eventos, nos produtos locais, nas empresas, nas campanhas e no cotidiano da população. A intenção da Prefeitura é justamente permitir que a comunidade se aproprie dela, indo além da comunicação institucional.

Esse será o verdadeiro teste.

Não será a quantidade de elogios durante o lançamento. Tampouco a inevitável revolta de quem acredita que qualquer mudança visual representa um atentado contra a civilização ocidental.

O teste será descobrir se as pessoas vão querer usar essa marca.

Se ela aparecer espontaneamente em camisetas, vitrines, embalagens, adesivos, produtos e projetos, terá construído pertencimento. Caso permaneça restrita aos materiais oficiais e às apresentações institucionais, teremos uma identidade tecnicamente premiável, conceitualmente sofisticada e emocionalmente distante.

Marca de cidade não vence quando é aprovada. Vence quando é apropriada.

“Cultura do Fazer” é o maior acerto

Mais do que o desenho, acredito que o conceito “Cultura do Fazer” seja a parte mais forte de todo o projeto.

Ele consegue traduzir uma característica real de Blumenau sem depender exclusivamente da origem germânica ou dos símbolos turísticos tradicionais. Fala sobre trabalho, capricho, construção, empreendedorismo e responsabilidade com aquilo que se entrega.

Há nessa ideia algo profundamente blumenauense.

Blumenau nem sempre é a cidade que faz mais barulho. Muitas vezes, é a cidade que abaixa a cabeça, organiza a operação e entrega. Isso possui virtudes e defeitos. Produz empresas consistentes, trabalhadores comprometidos e negócios duradouros. Também cria uma cultura que, em certos momentos, sabe fazer muito melhor do que sabe mostrar.

Talvez por isso a cidade tenha tantas empresas extraordinárias que continuam praticamente desconhecidas fora de seus próprios setores.

A “Cultura do Fazer” pode se tornar uma plataforma poderosa para valorizar empresas, trabalhadores, artistas, criadores, comunidades e pessoas que constroem Blumenau diariamente.

Entretanto, será preciso cuidado para que o conceito não vire apenas uma frase bonita repetida em eventos oficiais.

Porque Blumenau gosta tanto de dizer que trabalha que, às vezes, parece desconfiar de qualquer atividade que não produza suor visível.

Fazer também é criar. É pensar. É pesquisar. É ensinar. É comunicar. É cuidar. É questionar. É produzir cultura. É construir novas possibilidades para a cidade.

Se o conceito comportar toda essa diversidade, será realmente representativo. Se for reduzido à velha celebração do trabalho árduo, teremos apenas colocado uma roupa moderna em uma narrativa bastante conhecida.

Nem toda estranheza significa erro

Toda mudança de identidade provoca resistência. Existe uma razão simples para isso: as pessoas não avaliam apenas o novo desenho. Elas comparam algo recém-apresentado com símbolos que conhecem há décadas.

É uma disputa emocional bastante desigual.

Por isso, acho precipitado decretar que a marca “não representa Blumenau” poucas horas depois do lançamento. Representação também se constrói. Familiaridade não nasce pronta.

Ao mesmo tempo, chamar toda crítica de resistência ao novo seria confortável demais. A população tem o direito de olhar para uma identidade criada para representá-la e dizer que não se reconheceu imediatamente.

As duas coisas podem ser verdadeiras:

A marca pode ser boa e ainda precisar conquistar a cidade.

Aliás, talvez esse seja o ponto mais interessante. A nova identidade não procurou agradar instantaneamente a todos. Ela assumiu um risco estético e propôs uma Blumenau mais contemporânea, plural e preparada para o futuro.

Prefiro esse risco a uma marca covarde, feita para não incomodar ninguém e, consequentemente, incapaz de despertar qualquer sentimento.

Meu ponto de vista

Eu gostei da nova marca.

Acho o projeto inteligente, tecnicamente consistente e corajoso ao fugir do repertório óbvio. A “Cultura do Fazer” possui força, verdade e potencial para se transformar em uma narrativa maior do que uma campanha institucional.

Mas também acredito que a identidade ficou moderna — e talvez jovem — demais em alguns aspectos. Certos elementos parecem ter sido construídos para serem descobertos durante uma apresentação, não necessariamente reconhecidos pela população no contato espontâneo.

Isso não invalida o trabalho. Apenas revela seu maior desafio.

A marca precisará deixar de ser explicada e começar a ser vivida.

Precisará aparecer em aplicações capazes de despertar orgulho, desejo e pertencimento. Terá que conversar com a juventude sem parecer que Blumenau começou ontem. Deverá projetar o futuro sem tratar a tradição como um detalhe escondido dentro da tipografia.

E, principalmente, precisará sair das mãos de quem a criou.

Uma identidade municipal só se completa quando a população decide que ela também lhe pertence.

Uma marca para a Blumenau que queremos construir

Talvez eu esteja estranhando justamente aquilo que, daqui a alguns anos, parecerá natural.

Talvez os elementos que hoje precisam de explicação se tornem reconhecíveis pelo uso. Talvez a linguagem jovem ajude Blumenau a romper com uma imagem excessivamente presa ao passado. Talvez a marca encontre nas ruas uma força que ainda não conseguimos perceber nas apresentações.

Ou talvez descubramos que um projeto pode ser muito bem construído e, mesmo assim, não criar a conexão esperada.

Isso só o tempo — e a população — poderá responder.

Por enquanto, minha impressão é positiva, mas não deslumbrada. Gostei do que vi, respeito profundamente o trabalho desenvolvido e entendo as escolhas apresentadas. Ainda assim, acredito que há uma distância entre compreender racionalmente os símbolos e sentir emocionalmente que eles representam a cidade.

E uma marca de lugar precisa fazer as duas coisas.

A nova identidade mostra que Blumenau deseja parecer mais moderna, plural e preparada para o futuro. Isso é bom. O cuidado necessário será não modernizar tanto a representação a ponto de a própria cidade precisar perguntar onde foi parar dentro dela.

No final, não importa apenas se a marca possui Blumenau escondida em cada detalhe.

Importa saber se o blumenauense conseguirá se enxergar nela sem precisar que alguém desenhe as setas.


Anderson Cardoso Fundador e Editor-Chefe do Blumenau Hub Coluna Ponto de Vista

Crédito da foto: Prefeitura de Blumenau/Divulgação

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