Quando ir às compras era um acontecimento
Durante boa parte do século XX, fazer compras no Centro de Blumenau envolvia muito mais do que escolher um produto. A experiência começava nas calçadas da Rua XV de Novembro, passava pelas vitrines cuidadosamente montadas e terminava, muitas vezes, em encontros inesperados com amigos e conhecidos.
As lojas não eram apenas estabelecimentos comerciais. Elas faziam parte da rotina das famílias, ajudavam a movimentar o Centro e acompanhavam momentos importantes da vida dos moradores.
Era nesses espaços que muitas pessoas compravam:
- O primeiro eletrodoméstico da casa;
- Os presentes de casamento;
- A roupa para uma ocasião especial;
- Brinquedos para o Natal;
- Materiais para o cotidiano;
- Produtos que ainda eram considerados novidades.
Algumas dessas empresas nasceram em Blumenau. Outras faziam parte de grandes redes nacionais que chegaram à cidade ou permaneceram vivas no imaginário dos consumidores da região.
Casa Meyer atravessou quase um século de história
Fundada em 1903 por Ricardo Meyer, filho de imigrantes alemães, a Casa Meyer foi uma das primeiras lojas de Blumenau.
Como era comum nos estabelecimentos comerciais do início do século XX, o espaço oferecia uma grande variedade de produtos. Nos primeiros anos, os clientes encontravam desde roupas, sapatos e louças até ferramentas e ferragens.
Com o passar do tempo, a Casa Meyer passou a ser reconhecida principalmente pela venda de:
- Porcelanas;
- Cristais;
- Artigos para presentes;
- Produtos típicos da região;
- Bordados artesanais.
A loja tornou-se uma referência na Rua XV de Novembro e também passou a fazer parte da experiência turística da cidade. Durante décadas, visitar a Casa Meyer significava entrar em contato com uma Blumenau que combinava comércio, tradição familiar e identidade cultural.
O bordado da Casa Meyer virou patrimônio de Blumenau
A importância da Casa Meyer ultrapassou o comércio. O trabalho realizado pelas bordadeiras ligadas ao estabelecimento contribuiu para preservar uma técnica artesanal que se tornou parte da identidade da cidade.
Em 2022, o bordado da Casa Meyer foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial de Blumenau.
A técnica ficou conhecida por sua aplicação em peças decorativas, artigos para presentes e, posteriormente, nos vestidos utilizados pela realeza da Oktoberfest.
A história da Casa Meyer mostra como uma loja pode deixar de ser apenas um negócio e se transformar em parte do patrimônio cultural de uma cidade.
Mesmo após o encerramento das atividades comerciais, o nome continuou associado à memória afetiva de Blumenau e ao trabalho de gerações de bordadeiras.
Hermes Macedo foi o shopping de uma época
A Hermes Macedo inaugurou sua filial em Blumenau em 12 de maio de 1952, na Rua XV de Novembro, número 1.357.
O estabelecimento ocupava uma área ampla e oferecia diferentes categorias de produtos em um mesmo local. Em um período no qual ainda não existiam os grandes shopping centers da cidade, a Hermes Macedo cumpria uma função semelhante.
Os consumidores encontravam itens como:
- Eletrodomésticos;
- Móveis;
- Bicicletas;
- Máquinas de costura;
- Roupas;
- Artigos para presentes;
- Produtos automotivos;
- Utensílios domésticos.
A variedade fazia com que a loja fosse visitada por famílias inteiras. Ir à Hermes Macedo não significava apenas comprar, mas conhecer novidades, observar vitrines e circular por um dos espaços comerciais mais modernos da cidade naquele período.
O Natal da Hermes Macedo permanece na lembrança
Um dos elementos mais lembrados da presença da Hermes Macedo em Blumenau era a programação de Natal.
A empresa investia na decoração interna, na fachada e em ações que ocupavam a Rua XV de Novembro. A chegada do Papai Noel, os desfiles e o arco instalado na região central ajudaram a transformar a loja em uma atração para crianças e adultos.
Durante anos, o Natal da Hermes Macedo esteve ligado ao calendário afetivo da cidade.
Para muitas famílias, ver as vitrines e acompanhar a chegada do Papai Noel na Hermes Macedo fazia parte das celebrações de fim de ano.
A antiga loja ficava no espaço onde posteriormente foi instalado o Bremen Zenter. Embora a rede tenha encerrado suas atividades na década de 1990, suas campanhas e festas natalinas continuam presentes nas recordações de muitos blumenauenses.
Arapuã levou os eletrodomésticos ao centro da vida familiar
A Arapuã foi uma das maiores redes brasileiras de varejo de eletrodomésticos durante as décadas de 1970, 1980 e 1990.
A empresa ficou conhecida pelas lojas amplas, pelas campanhas publicitárias e pelas condições de pagamento que permitiam às famílias adquirir produtos de maior valor.
Entre os principais itens comercializados estavam:
- Televisores;
- Aparelhos de som;
- Geladeiras;
- Fogões;
- Máquinas de lavar;
- Móveis;
- Eletroeletrônicos.
Em Blumenau, a marca é lembrada por consumidores que acompanharam a expansão do comércio no Centro e o período em que os grandes magazines disputavam a atenção das famílias.
Registros de memória local também associam a Arapuã ao imóvel onde funcionou parte do antigo Shopping Beira-Rio, espaço que mais tarde passou por diferentes ocupações.
Mesbla representava o sonho da loja que vendia de tudo
A Mesbla foi uma das redes de lojas de departamentos mais conhecidas do Brasil. Fundada em 1912, a empresa chegou ao auge durante os anos 1980, quando possuía aproximadamente 180 pontos de venda e mais de 28 mil funcionários no país.
A rede comercializava uma variedade tão grande de produtos que ficou conhecida como uma loja onde o consumidor encontrava praticamente tudo.
Nas unidades da Mesbla, era possível comprar:
- Roupas;
- Móveis;
- Eletrodomésticos;
- Utensílios domésticos;
- Brinquedos;
- Artigos esportivos;
- Equipamentos;
- Veículos em algumas localidades.
Mesmo quando as lembranças sobre endereços e períodos de funcionamento se misturam com o passar do tempo, o nome Mesbla permanece ligado à era dos grandes magazines brasileiros.
Sua publicidade, os catálogos coloridos e as campanhas transmitidas em rede nacional ajudaram a fazer da marca uma referência também entre consumidores de Blumenau e do Vale do Itajaí.
Besen permanece entre as lembranças do comércio antigo
O nome Besen também aparece nas recordações de moradores quando o assunto são as lojas e os estabelecimentos comerciais que fizeram parte de outros períodos de Blumenau.
Diferentemente da Casa Meyer e da Hermes Macedo, que contam com registros históricos municipais mais detalhados, as informações públicas disponíveis sobre a presença comercial da Besen na cidade são mais limitadas.
Essa ausência de documentação revela um desafio importante para a preservação da memória urbana: muitos negócios conhecidos em determinada época desaparecem sem que seus endereços, proprietários, anúncios e histórias sejam devidamente registrados.
Fotografias particulares, notas fiscais, propagandas de jornais, embalagens, depoimentos de antigos funcionários e relatos de clientes podem ajudar a reconstruir essa trajetória.
A história de uma cidade também está guardada nos estabelecimentos que já fecharam e nas lembranças de quem passou por eles.
Por que essas lojas permanecem na memória?
A força dessas marcas não está relacionada apenas aos produtos que comercializavam. Elas acompanharam transformações sociais, econômicas e tecnológicas vividas pelas famílias.
Muitos consumidores lembram desses espaços porque foi neles que compraram o primeiro televisor, escolheram um presente de casamento ou viram de perto um eletrodoméstico que representava modernidade.
Essas lojas também criaram vínculos por meio de:
- Atendimento pessoal;
- Vendedores conhecidos pelo nome;
- Vitrines temáticas;
- Campanhas de Natal;
- Catálogos impressos;
- Crediários;
- Sorteios e promoções;
- Localização no coração da cidade.
Antes dos algoritmos e dos anúncios personalizados, a atenção era conquistada nas vitrines, nos jornais, no rádio e nas conversas entre clientes.
O comércio ajudou a construir a identidade da Rua XV
A Rua XV de Novembro sempre teve um papel central na vida econômica e social de Blumenau.
Ao longo das décadas, suas calçadas receberam pequenos comércios familiares, grandes magazines, bancos, cinemas, cafés, hotéis e lojas especializadas. A concentração de atividades transformou a região em um ponto de encontro para moradores de diferentes bairros.
A presença de estabelecimentos como Casa Meyer e Hermes Macedo ajudou a consolidar essa identidade comercial.
Embora muitos prédios tenham mudado de função e várias marcas tenham desaparecido, as fotografias antigas mostram uma Rua XV movimentada, repleta de fachadas, letreiros, vitrines e pessoas.
O fim das lojas não apagou suas histórias
Mudanças na economia, crescimento dos shopping centers, aumento da concorrência, novas formas de consumo e problemas de gestão contribuíram para o desaparecimento de muitas redes tradicionais.
Nos anos 1990, empresas como Hermes Macedo, Arapuã e Mesbla enfrentaram graves dificuldades financeiras. O varejo brasileiro estava mudando rapidamente, enquanto novos concorrentes e modelos comerciais ganhavam espaço.
Entretanto, o encerramento de uma empresa não significa o desaparecimento de sua influência.
Os antigos estabelecimentos permanecem vivos:
- Nas fotografias de família;
- Nos anúncios guardados;
- Nas histórias de antigos funcionários;
- Nas lembranças dos consumidores;
- Nos prédios que receberam novos negócios;
- Na transformação urbana do Centro.
Memórias dos blumenauenses podem completar essa história
A documentação histórica disponível permite reconstruir parte da trajetória dessas lojas. No entanto, muitas informações ainda estão guardadas apenas na memória de quem viveu aquele período.
Relatos pessoais podem ajudar a identificar antigos endereços, acontecimentos, funcionários e detalhes do cotidiano que não aparecem nos registros oficiais.
Quem se lembra da Casa Meyer, da Hermes Macedo, da Arapuã, da Mesbla ou da Besen pode contribuir contando:
- Onde a loja funcionava;
- Em qual período costumava frequentá-la;
- O que era vendido;
- Quem trabalhava no local;
- Qual lembrança mais marcou sua família;
- Se possui fotografias, propagandas ou objetos do estabelecimento.
Preservar essas histórias é também preservar a transformação de Blumenau, de seu comércio e das pessoas que ajudaram a movimentar a cidade.
Referências
- Memória Digital da Casa Meyer — Prefeitura de Blumenau
- Bordado da Casa Meyer como patrimônio imaterial — Turismo Blumenau
- Memória Digital das Lojas Hermes Macedo — Prefeitura de Blumenau
- História da Hermes Macedo em Blumenau — Prefeitura de Blumenau
- História da Mesbla — UOL Economia
- Arapuã e os grandes magazines brasileiros — Exame
- Blog Adalberto Day
Crédito da foto: Arquivo Histórico José Ferreira da Silva / Prefeitura de Blumenau

