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Quando uma tradição vira negócio: o que a crise da FIFA faz Blumenau refletir sobre a Oktoberfest

A tentativa da FIFA de atrair investidores privados para uma empresa ligada às suas competições provocou um boicote da UEFA. Em Blumenau, a crise abre uma reflexão legítima: como explorar comercialmente uma tradição sem afastar a comunidade que lhe dá significado?

Quando uma tradição vira negócio: o que a crise da FIFA faz Blumenau refletir sobre a Oktoberfest
Foto: Divulgação

Análise Blumenau Hub | Informações verificadas em 31 de julho de 2026.

UEFA anuncia boicote após proposta da FIFA

A UEFA e suas 55 associações nacionais decidiram não participar das competições organizadas pela FIFA enquanto permanecer ativa a proposta de transferir parte dos interesses comerciais da Copa do Mundo e de outros torneios para investidores privados.

O projeto prevê a criação da FIFA Forward Enterprise, uma empresa avaliada em aproximadamente US$ 20 bilhões, que concentraria operações relacionadas às competições da entidade. De acordo com a Reuters, até 20% da nova companhia poderia ser oferecida a investidores externos.

A FIFA afirma que os investidores seriam minoritários e não teriam poder sobre regras, formatos, calendários ou decisões esportivas. A entidade também declarou que o projeto somente avançaria com a aprovação da maioria de suas 211 associações nacionais.

A UEFA, entretanto, entende que a entrada de acionistas criaria uma pressão permanente por retorno financeiro. Em seu comunicado oficial, a entidade europeia argumenta que a Copa foi construída durante gerações por jogadores, seleções e torcedores.

“A Copa do Mundo não está à venda.”

A frase sintetiza uma disputa que vai além do futebol. O conflito envolve propriedade, governança e o direito de decidir o futuro de algo que possui valor comercial, mas também ocupa um espaço afetivo na sociedade.

O que isso tem a ver com Blumenau?

A Copa do Mundo e a Oktoberfest Blumenau são eventos de naturezas, dimensões e modelos de gestão completamente diferentes. Não existe equivalência jurídica, administrativa ou financeira entre eles.

A comparação faz sentido em outro ponto: os dois eventos são administrados por instituições, movimentam negócios e possuem marcas comercialmente exploradas, mas grande parte do seu valor foi construída pela participação coletiva.

A Oktoberfest Blumenau é promovida pela Prefeitura, por meio da Blumenau Eventos e da Secretaria de Turismo e Lazer. Ao mesmo tempo, sua realização envolve patrocinadores, fornecedores, cervejarias, restaurantes, hotéis, trabalhadores, grupos folclóricos, bandas, clubes, comerciantes e milhares de moradores.

Por isso, a festa não pode ser compreendida apenas como um produto turístico. Ela também representa identidade, memória e pertencimento.

Pesquisa confirma ligação entre a Oktoberfest e a cidade

Uma pesquisa divulgada em 31 de julho pelo Projeto Focus, parceria entre Prefeitura de Blumenau, Furb e Univali, demonstra a dimensão simbólica da festa para a população.

O levantamento ouviu 1.328 moradores adultos durante o primeiro semestre de 2026 e apresentou os seguintes resultados:

  • 80,7% afirmam que a Oktoberfest preserva a identidade cultural de Blumenau;
  • 82,6% reconhecem que a festa mantém viva a herança cultural alemã;
  • cerca de 80% apoiam o fortalecimento do turismo relacionado ao evento;
  • 81,4% defendem atitudes respeitosas entre moradores e visitantes.

Segundo a Prefeitura de Blumenau, os moradores também enxergam a festa como elemento de valorização da imagem da cidade e de fortalecimento do orgulho local.

Esses números revelam um ponto fundamental: a Prefeitura administra o evento, mas o significado da Oktoberfest é compartilhado com a população.

A Oktoberfest também é uma marca comercial

Reconhecer o valor cultural da Oktoberfest não significa ignorar sua importância econômica. A festa precisa gerar receitas, atrair turistas, estabelecer parcerias e financiar uma operação complexa.

A edição de 2026 possui cerveja oficial, dezenas de patrocinadores, transporte aéreo oficial, plataforma de venda de ingressos e uma extensa rede de fornecedores. Hotéis, bares, restaurantes, lojas, transportadoras, cervejarias e prestadores de serviços também são impactados pelo movimento gerado pelo evento.

Além disso, a marca Oktoberfest Blumenau possui um acordo de licenciamento comercial com duração de dez anos. A iniciativa permite a criação e a comercialização de produtos oficiais, como canecos, chapéus e outros artigos vinculados à festa.

Ao anunciar o acordo, em 2024, a Prefeitura de Blumenau definiu a Oktoberfest como um patrimônio cultural e econômico da cidade.

Essa combinação não representa necessariamente uma contradição. Uma tradição pode preservar sua identidade e, simultaneamente, criar oportunidades econômicas. O desafio está na forma como esse processo é conduzido.

Comercializar uma tradição não significa vendê-la

O problema não é uma festa possuir patrocinadores, vender ingressos ou licenciar produtos. Sem recursos, estrutura e parceiros, eventos desse tamanho dificilmente conseguiriam crescer, receber visitantes e manter sua programação.

A questão surge quando o interesse comercial começa a ocupar o espaço da experiência cultural.

Uma marca pode gerar mais receitas e, ainda assim, perder significado. Isso acontece quando as decisões priorizam somente aquilo que vende, enquanto os elementos responsáveis pela identidade são transformados em decoração.

No caso da Oktoberfest, preservar a essência envolve manter espaço para:

  • grupos folclóricos;
  • clubes de caça e tiro;
  • bandas típicas;
  • gastronomia tradicional;
  • desfiles;
  • trajes e manifestações culturais;
  • participação dos moradores;
  • memória da imigração;
  • relacionamento respeitoso entre turistas e comunidade.

Patrocínios e licenciamentos podem fortalecer esses elementos. Entretanto, também precisam ser acompanhados por critérios claros de governança, transparência e preservação cultural.

A diferença entre público e consumidor

O consumidor compra um ingresso, utiliza um serviço e vai embora. Uma comunidade permanece convivendo com os impactos, benefícios e transformações provocados por um grande evento.

Essa distinção é importante porque o valor da Oktoberfest não depende apenas do número de ingressos vendidos. Ele também está relacionado à disposição dos moradores de continuar reconhecendo a festa como parte legítima de Blumenau.

Quando a população deixa de se enxergar em um evento cultural, ele pode continuar atraindo público, mas começa a perder pertencimento.

A própria pesquisa do Projeto Focus identificou um ponto de atenção: somente 34% dos entrevistados demonstraram interesse em participar de ações voluntárias relacionadas à Oktoberfest. O dado não significa rejeição à festa, mas indica uma oportunidade para ampliar o envolvimento comunitário.

A lição para os empresários de Blumenau

A crise entre FIFA e UEFA também traz uma reflexão para empresas que desejam construir marcas fortes.

Uma organização pode possuir juridicamente uma marca. Porém, seu valor simbólico é construído por clientes, funcionários, parceiros e comunidades. Quanto maior a identificação emocional do público, menor a possibilidade de a empresa tomar decisões considerando apenas seus interesses internos.

Isso vale especialmente para negócios tradicionais, empresas familiares e marcas profundamente ligadas à cidade.

Antes de realizar uma mudança relevante, o gestor deveria perguntar:

  • O público entende a razão dessa decisão?
  • A mudança preserva aquilo que tornou a marca reconhecida?
  • Os principais envolvidos foram ouvidos?
  • O crescimento fortalece ou dilui a identidade?
  • Estamos monetizando a reputação ou investindo para ampliá-la?
  • A decisão beneficia somente o caixa ou também o futuro da marca?

Uma empresa não precisa pedir autorização para cada movimento estratégico. Mas ignorar as pessoas que sustentam sua reputação pode destruir um valor que nenhum contrato consegue recomprar.

Crescimento econômico e pertencimento precisam caminhar juntos

A discussão provocada pela FIFA mostra que alguns ativos possuem uma dimensão maior do que seus resultados financeiros. Eles carregam histórias, afetos e expectativas que não pertencem exclusivamente a quem os administra.

Em Blumenau, a Oktoberfest demonstra como cultura e economia podem caminhar juntas. A festa movimenta negócios, fortalece o turismo, projeta a cidade e cria oportunidades para empresas locais. Simultaneamente, continua sendo reconhecida pelos moradores como parte da identidade da cidade.

O desafio não está em escolher entre tradição e dinheiro. Está em criar um modelo no qual o desenvolvimento comercial ajude a financiar, proteger e renovar a tradição.

Uma marca pode ter proprietário. Mas, quando se transforma em símbolo, seu significado passa a pertencer também às pessoas.

A Oktoberfest precisa continuar sendo um grande negócio para Blumenau. Porém, seu maior valor estará preservado enquanto os blumenauenses continuarem sentindo que a festa também pertence a eles.

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