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São Francisco do Sul pode estar construindo um dos maiores hubs logísticos do Brasil

Bilhões de reais em novos terminais, expansão industrial, dragagem e infraestrutura estão redesenhando a Baía da Babitonga. O conjunto de investimentos em São Francisco do Sul e Itapoá começa a formar um corredor logístico capaz de ampliar o protagonismo do Norte de Santa Catarina no comércio exterior brasileiro.

São Francisco do Sul pode estar construindo um dos maiores hubs logísticos do Brasil
Foto: Divulgação

Um corredor bilionário começa a surgir na Baía da Babitonga

Enquanto boa parte das atenções sobre a logística catarinense historicamente se concentra no eixo de Itajaí e Navegantes, outro movimento de grandes proporções avança no Norte do estado. São Francisco do Sul, Itapoá e toda a Baía da Babitonga atravessam um ciclo de investimentos que pode transformar a região em um dos principais hubs logísticos do Brasil.

A grande história não está em um único porto, terminal ou indústria. Ela aparece quando os projetos são observados em conjunto.

Porto público, terminal de contêineres, novos terminais privados, corredores para exportação de grãos, cabotagem, siderurgia, armazenagem e uma dragagem capaz de receber embarcações ainda maiores começam a funcionar como partes de um mesmo ecossistema econômico.

Somados, os investimentos anunciados ou concluídos chegam à casa dos bilhões de reais e ajudam a explicar por que a Baía da Babitonga ganhou importância estratégica no mapa logístico brasileiro.

Porto de São Francisco bate recordes consecutivos

Um dos principais sinais dessa transformação está na própria movimentação do Porto de São Francisco do Sul.

Em 2023, o terminal movimentou 16,8 milhões de toneladas, então o maior volume de sua história. O recorde foi novamente superado em 2024, quando a movimentação chegou a 17 milhões de toneladas.

Em 2025, veio um terceiro recorde consecutivo: 17,5 milhões de toneladas movimentadas em um único ano.

O crescimento foi de aproximadamente 39% em relação a 2022, quando o Porto havia registrado 12,6 milhões de toneladas.

Entre as principais cargas movimentadas estão grãos, fertilizantes e produtos siderúrgicos, conectando o complexo tanto ao agronegócio quanto à indústria.

O desempenho coloca São Francisco do Sul entre os grandes corredores de movimentação de cargas do país e mostra que a expansão da região não acontece apenas sobre projeções futuras. A infraestrutura existente já opera em volumes historicamente elevados.

Veja os dados do Porto de São Francisco do Sul

R$ 333 milhões para aprofundar a Baía da Babitonga

Um dos investimentos mais estratégicos para o futuro do complexo é a dragagem de aprofundamento e alargamento do canal de acesso da Baía da Babitonga.

A obra está orçada em R$ 333 milhões e prevê elevar a profundidade do canal de aproximadamente 14 para 16 metros.

Na prática, isso permitirá a operação de navios com até 366 metros de comprimento e carga máxima, ampliando a capacidade de atendimento do complexo portuário.

O projeto foi viabilizado por uma parceria entre o Porto Público de São Francisco do Sul e o Porto Itapoá:

  • R$ 33 milhões aportados pelo Porto de São Francisco do Sul;
  • R$ 300 milhões ligados ao Porto Itapoá;
  • aprofundamento do canal para 16 metros;
  • possibilidade de receber navios de até 366 metros;
  • ampliação da capacidade para embarcações de aproximadamente 16 mil TEUs.

Parte dos sedimentos retirados durante a dragagem também está sendo utilizada no engordamento da faixa de areia de Itapoá.

A importância da obra vai muito além dos dois terminais diretamente envolvidos. Um canal mais profundo aumenta a competitividade de praticamente toda a infraestrutura portuária instalada ou planejada dentro da Baía da Babitonga.

Saiba mais sobre a dragagem da Baía da Babitonga

ArcelorMittal investiu R$ 2,2 bilhões em São Francisco do Sul

O crescimento logístico acontece ao mesmo tempo em que grandes investimentos industriais reforçam a demanda por infraestrutura na região.

A ArcelorMittal concluiu uma expansão de R$ 2,2 bilhões na Unidade Vega, localizada em São Francisco do Sul.

O projeto incorporou novas linhas de galvanização e recozimento contínuo de aço e ampliou a capacidade instalada da planta de 1,6 milhão para 2,2 milhões de toneladas por ano de aços laminados a frio.

A presença de uma operação industrial dessa escala ajuda a explicar uma das características estratégicas da Babitonga: a região não funciona apenas como passagem de mercadorias, mas também conecta produção industrial, importação de matérias-primas, cabotagem e exportação.

Conheça os investimentos da ArcelorMittal

Coamo projeta terminal de R$ 3 bilhões em Itapoá

Outro investimento capaz de ampliar significativamente a estrutura logística regional é o novo terminal portuário projetado pela Coamo Agroindustrial Cooperativa em Itapoá.

O empreendimento prevê aproximadamente R$ 3 bilhões em investimentos e deve ocupar uma área de 43 hectares.

Segundo o projeto anunciado, a estrutura contará com três berços de atracação e terá capacidade estimada para movimentar 11 milhões de toneladas por ano.

A previsão divulgada é que o terminal entre em operação no início de 2030.

Para a Coamo, uma das maiores cooperativas agroindustriais da América Latina, possuir uma estrutura portuária própria pode representar maior controle sobre uma das etapas mais importantes da cadeia de exportação.

Para Santa Catarina, significa adicionar outra operação de grande escala ao ecossistema existente na Babitonga.

Veja informações sobre o projeto da Coamo

TGSC pode movimentar até 6 milhões de toneladas de grãos por ano

Em São Francisco do Sul, outro empreendimento adiciona capacidade ao corredor do agronegócio.

O Terminal de Granéis de Santa Catarina (TGSC) foi projetado especialmente para a exportação de granéis agrícolas, principalmente soja, milho e farelo.

Em sua primeira fase, a estrutura possui capacidade projetada para movimentar aproximadamente 6 milhões de toneladas por ano.

O terminal conta com estrutura para receber navios graneleiros do tipo Capesize de até 125 mil toneladas de porte bruto e utiliza sistemas de correias transportadoras para movimentação dos produtos.

A localização próxima ao Porto Público reforça a formação de um corredor especializado para o escoamento da produção agrícola brasileira.

A carga que chega ao Norte catarinense não está limitada à produção estadual. A estrutura pode atender fluxos provenientes das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, aumentando a área de influência logística da Babitonga.

Conheça o TGSC

Terminal Mar Azul adiciona cabotagem e cargas industriais ao ecossistema

O Terminal Mar Azul, projeto da Norsul às margens da Baía da Babitonga, representa outra peça desse movimento.

O empreendimento prevê uma área útil de armazenagem de aproximadamente 110 mil metros quadrados, ponte de acesso marítimo com cerca de 1,8 quilômetro e dois berços de atracação.

A capacidade estimada é de aproximadamente 5 milhões de toneladas por ano.

O projeto está orientado principalmente à movimentação marítima de cargas industriais e pretende ampliar a utilização da cabotagem, reduzindo parte da dependência do transporte rodoviário.

A Norsul também estima a geração de aproximadamente 4 mil empregos durante a implantação da estrutura.

Essa característica adiciona outra camada ao complexo da Babitonga. Enquanto alguns terminais estão fortemente ligados a grãos ou contêineres, o Mar Azul amplia a presença da logística marítima voltada à indústria.

Conheça o projeto Terminal Mar Azul

Porto Brasil Sul prevê investimento privado de aproximadamente R$ 6 bilhões

Entre os maiores projetos previstos para a região está o Porto Brasil Sul (PBS), empreendimento privado planejado pela Worldport Desenvolvimento Portuário para São Francisco do Sul.

O projeto prevê aproximadamente R$ 6 bilhões em investimentos privados e foi concebido como um complexo portuário multicargas.

A proposta contempla operações relacionadas a diferentes segmentos, incluindo:

  • Contêineres;
  • Granéis sólidos;
  • Fertilizantes;
  • Granéis líquidos;
  • Veículos;
  • Carga geral;
  • Gás.

Estimativas divulgadas sobre o projeto apontam para aproximadamente 2,5 mil postos de trabalho durante as obras e mais de 2 mil empregos diretos na operação, superando 4,5 mil postos entre as duas etapas.

Em junho de 2026, o empreendimento recebeu uma Licença Ambiental Prévia (LAP) do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA). Isso, porém, não significa que sua implantação esteja definida.

O projeto é alvo de debates e questionamentos relacionados principalmente ao processo de licenciamento e aos impactos ambientais na região da Praia do Sumidouro.

O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) mantém atuação sobre o caso, e o empreendimento vem sendo discutido em audiências públicas e processos relacionados à sua viabilidade ambiental.

Portanto, o Porto Brasil Sul representa um dos maiores projetos potenciais dentro desse novo cenário logístico, mas sua implantação ainda depende da evolução das etapas regulatórias, ambientais e jurídicas.

Consulte informações sobre o licenciamento no IMA

O diferencial da Babitonga está na soma dos projetos

Separadamente, cada empreendimento já possui dimensões relevantes. Quando colocados dentro do mesmo mapa, porém, revelam uma transformação maior.

A Baía da Babitonga começa a concentrar diferentes especializações logísticas em uma única região:

  • Porto público com movimentação superior a 17 milhões de toneladas por ano;
  • Grande terminal especializado em contêineres em Itapoá;
  • Exportação de soja, milho e outros granéis;
  • Operações de fertilizantes;
  • Produtos siderúrgicos;
  • Cabotagem;
  • Grandes indústrias;
  • Terminais privados em implantação ou planejamento;
  • Infraestrutura de armazenagem;
  • Novo canal de acesso com 16 metros de profundidade.

É essa combinação que sustenta a tese de formação de um hub logístico, e não simplesmente de crescimento isolado de diferentes portos.

Em logística, escala gera escala. Mais terminais podem atrair mais linhas marítimas. Mais linhas aumentam as possibilidades de conexão. Mais cargas justificam infraestrutura. Mais infraestrutura atrai indústria, centros de distribuição, operadores logísticos e novos investimentos.

São Francisco do Sul e Itapoá podem formar um corredor logístico de escala nacional

A localização também pesa.

O Norte catarinense está próximo a alguns dos maiores polos industriais de Santa Catarina e possui conexão rodoviária com importantes regiões produtoras do Paraná e do Centro-Oeste.

Joinville, Jaraguá do Sul, Araquari e São Francisco do Sul formam uma região fortemente industrializada, enquanto o avanço da logística portuária amplia sua conexão com mercados internacionais.

Ao mesmo tempo, a presença de Itapoá fortalece a movimentação de contêineres dentro da mesma baía.

Isso cria uma combinação pouco comum: indústria, agronegócio, contêineres, granéis, cabotagem e infraestrutura portuária de grande escala concentrados dentro de um mesmo território logístico.

O desafio agora está fora dos portos

A expansão também cria um paradoxo.

Quanto mais eficiente se torna a infraestrutura dentro da Baía da Babitonga, maior é a pressão sobre as conexões terrestres que precisam levar e retirar as cargas da região.

Rodovias, ferrovias, acessos urbanos e sistemas de conexão com os terminais tornam-se parte fundamental dessa equação.

Não basta construir berços, terminais e aprofundar canais se caminhões e cargas encontram gargalos poucos quilômetros depois de deixar a área portuária.

Por isso, o crescimento da Babitonga aumenta também a importância estratégica de projetos relacionados à BR-280, acessos portuários e integração ferroviária.

Esse pode ser um dos principais fatores que determinarão até onde o potencial logístico da região conseguirá avançar nas próximas décadas.

Um novo mapa logístico começa a aparecer em Santa Catarina

A transformação da Baía da Babitonga ainda está em andamento. Alguns investimentos já foram concluídos, outros estão em execução e parte dos grandes projetos permanece nas etapas de licenciamento ou planejamento.

Por isso, afirmar que São Francisco do Sul já é um dos maiores hubs logísticos do Brasil seria precipitado.

Mas os sinais de formação desse corredor são cada vez mais difíceis de ignorar.

São R$ 333 milhões em dragagem, R$ 2,2 bilhões na expansão da ArcelorMittal Vega, aproximadamente R$ 3 bilhões projetados pela Coamo, um terminal de granéis capaz de movimentar 6 milhões de toneladas por ano, outro terminal projetado para 5 milhões de toneladas anuais e um projeto portuário privado que prevê cerca de R$ 6 bilhões em investimentos.

Tudo isso acontece em torno de uma baía onde o Porto Público já movimentou 17,5 milhões de toneladas em 2025 e onde algumas das maiores estruturas logísticas catarinenses operam lado a lado.

A história, portanto, talvez não seja simplesmente sobre novos portos.

É sobre a formação de um corredor bilionário que pode reposicionar o Norte de Santa Catarina dentro da logística brasileira.

Referências

Crédito da foto: Divulgação / Porto de São Francisco do Sul

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